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Desafios éticos nos negócios

Publicado em 24/7/2008


Regina Migliori
 
As empresas estão diante do desafio de transformar a ética do interesse próprio em ética como orientação para o bem comum. Ou seja, criar abordagens de proximidade com as necessidades dos outros e não somente com as próprias expectativas de retorno.
 
O estado de espírito do "primeiro eu" corre o risco de minar o espírito de parceria exigido pelas condições atuais. Este estado de espírito cria a tendência de explorar em vez de construir relacionamentos de negócios de uma maneira ética e mutuamente equilibrada.
 
O espírito do interesse próprio é que impede o administrador de manter compromissos éticos em relação a grupos múltiplos - os stakeholdes. É este mesmo espírito auto-centrado que o faz explorar a natureza sem nenhum pudor, olhar para os concorrentes como assassinos pessoais do próprio lucro, ver o fornecedor como um oportunista, transformar companheiros de trabalho em instrumentos para a própria promoção, valorizar os empregados somente se trouxerem lucro, encarar os clientes como criaturas impertinentes que insistem em ter razão e que só são valiosos à medida que trouxerem algo de bom para a empresa. Tal enfoque não é fórmula para o sucesso.
 
Não é possível atingir a sensibilidade do mercado ou a cooperação organizacional, se necessariamente o seu próprio modo de fazer as coisas e o seus interesses forem mais fortes do que qualquer outra coisa.
 
O empresário tem que estar atento para não adotar um sistema de valores que só tira prazer dos lucros. O materialismo extremo de muitos dos jovens executivos da atualidade, documentado por inúmeras pesquisas, é um dos resultados dessa postura. Essa orientação não apenas impõe sérias restrições à capacidade do administrador de abordar o trabalho eticamente, como também afeta o julgamento comercial do executivo.
 
Quando seu próprio bem-estar é a preocupação primária e o ponto de partida para a criação das suas ações, a tendência é ajustar as antenas da percepção, do conhecimento e da sensibilidade de modo a filtrar o resto do mundo.
 
O espírito do "primeiro eu" dá origem ao "cada um por si" ou àquilo que muitos definem como a lei da selva. Seguramente não é uma postura que honre a nossa condição humana!
 
O "cada um por si" impõe uma lição clara em que a ética, como exercício da consciência humana e como orientação para o bem, não tem lugar. Em termos práticos, é uma postura destrutiva, insensível e completamente inadequada. Principalmente para o exercício de uma área profissional em que a única certeza é a necessidade de relacionamentos: são necessárias no mínimo duas pessoas para completar um negócio ou um processo de delegação.
 
A postura do “cada um por si” está completamente fora da sintonia em um mundo onde os mercados e as complexas relações globais exigem permanentemente novas parcerias e compromissos. Coisas que só um estado de espírito gerencial ético pode promover com a necessária velocidade e frequência.
 
Uma das grandes revoluções do pensamento gerencial estratégico para o século XXI é a integração entre razão, sensibilidade e ação. Ou trocando em miúdos, entre cabeça, coração e mãos. Há milênios esta possibilidade integradora vem sendo sugerida e exercitada pelos seres humanos, mas no momento ela se transformou em urgência.
 
Embora a razão seja essencial nas decisões éticas e morais, a fonte é o coração, porque nem sempre o que está no âmbito da razão mobiliza a ação. Aquilo que é honorável, justo, nobre e edificante, toma posse do coração e anima-nos a abraça-lo, realiza-lo e mantê-lo. O que é inteligível, evidente e provável, consegue apenas o frio assentimento da compreensão.
 
Ou seja, não basta dispor da informação e criar a estratégia. Isso não garante uma ação consciente. O que motiva, contagia, enobrece não é só saber o que se está fazendo, e sim acreditar no que se faz.
 
As recomendações táticas de Tom Peters atualizam essa orientação para o bem, para a estruturação de um eixo de coerência entre cabeça, coração e ação: serviço de alto valor acrescido, flexibilidade, capacidade de resposta, saber ouvir, consciência de qualidade, disposição para descartar sistemas estabelecidos, mentalidade de parceira e inovação.
 
Isso significa que uma ação ética não se subordina aos demonstrativos financeiros. Baseado nisso é que encontramos muitos executivos que, diante de uma prática enganosa, mas lucrativa, declaram simplesmente: "não fazemos negócios deste tipo".
 
Identificar a fonte desta decisão significa construir uma ética empresarial que não funciona somente com a lógica comercial, mas que se apropria de um imenso reservatório de decência espontânea.
 
Muitos executivos declaram que ao final de suas carreiras precisam sentir que "defenderam alguma coisa". São esses sentimentos que estimulam compromissos a longo prazo e com objetivos maiores.
 
A opção por um padrão ético de comportamento empresarial não contradiz a lógica empresarial e maximiza a motivação por valores orientadores do bem comum, estabelecendo atitudes, decisões e soluções de problemas que expressam integridade e responsabilidade nos negócios. Essa mudança de postura reflete a possibilidade de chegar ao lucro não a partir do interesse próprio, mas a partir do respeito próprio.
 
O cenário atual exige novos posicionamentos. As empresas têm um importante papel na criação de um mundo mais solidário, justo e harmônico, e precisam deixar que esta responsabilidade transpareça em todas as suas instâncias, integrando de forma sinérgica as pessoas, os negócios, as comunidades locais e internacionais, considerando também como componentes essenciais o conhecimento, a manutenção da vida e os valores de diferentes culturas que expressam há milênios a busca de realização de nossa própria humanidade.
 
Tudo isso precisa integrar a dinâmica de providências nos negócios que de forma geral têm focado somente aspectos econômicos e tecnológicos. É necessário e urgente inverter a tendência de monetarizar os valores humanos e ignorar propósitos mais elevados. Deixar de tomar decisões que afetam profundamente a vida e o futuro das pessoas, do país, da natureza, do planeta, com base exclusiva em relatórios financeiros.
 


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