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Ética na Comunicação, na Escola e no Mundo

Publicado em 10/7/2008


Regina Migliori
(Publicado na Revista do Emilie, n.13 ano 1/2008)
Algumas pessoas caem na armadilha de querer que o mundo seja de uma única maneira. Dividem-se em certos e errados, e continuam discutindo ao longo da vida, cada um achando que tem mais razão do que o outro, esquecendo que agindo assim, podem até pregar a paz, mas na realidade semeiam e praticam a guerra.
Muita gente já discutiu, muita guerra já aconteceu, muitos projetos fracassaram, porque alguém, em algum lugar, queria fazer do mundo um grande “porque sim”, onde tudo funcionasse por conta do seu modelo desejado, acreditando estar certo e o resto do mundo errado. Mas a vida não é bem assim. Ela se mantém em função da diversidade. As diferenças são a matéria prima da harmonia que sustenta a vida. A diversidade é manifestação da paz quando percebida e praticada a partir de parâmetros harmônicos de relacionamento.
Cada ser humano busca seu caminho de desenvolvimento. É tarefa do educador aprender a compreendê-lo, e mostrar-lhe uma possível trajetória. Porém, a escolha em adotar o caminho apontado, optar por outro, ou ficar estancado à beira da estrada - nisso ninguém pode interferir - estas decisões são da responsabilidade de cada um.
Portanto, não pretendo influenciar as pessoas a fazerem algo pré-definido, mas gostaria de despertar o desejo de mudar. Alimentar a crença na possibilidade de uma atuação que realmente nos conduza a outros resultados. Talvez mais felizes. Não esperemos que o mundo faça isso por nós. Não esperemos que o mundo nos compreenda se não nos fizermos entender. Viver é ter a humildade de se explicar, se assim for necessário, e a grandeza de compreender, pois isso sempre é necessário. Esta é a essência da comunicação. Para isso, não podemos trancar nosso coração, nem obstruir nossas inteligências.
Em primeiro lugar, é fundamental estarmos convencidos que nascemos para realizar nossos sonhos. A vida é sonho. Quem não sabe sonhar, não sabe planejar. Plano é algo linear: pensamos isso, para depois acontecer aquilo e aquilo outro. Sonho é múltiplo. Nele cabe muita coisa ao mesmo tempo. É assim que a vida acontece, tudo ao mesmo tempo, sem que a nossa ordem particular possa interferir com mais força do que a ordem, às vezes caótica, dos acontecimentos. Somos responsáveis pelos sonhos que sonhamos, pelos que desistimos, e por aqueles que levamos em frente. Se algo muda em nós, tudo à nossa volta muda também.
Nossa vida está vinculada a uma estrutura de conexões estabelecida em níveis que nos integram a nós mesmos, ao nosso universo de ação, e à repercussão da nossa atuação, cujos impactos são muito mais amplos do que temos identificado.
A interação entre as pessoas, as relações com o mundo, as ações de comunicação colocam movimento em situações que parecem estagnadas. Certezas internas que podem ser revistas. Situações externas que se modificam, não só como as certezas individuais determinariam. Muitas vezes, uma dureza interna nos faz muito infelizes.
Não somos uma realidade dura como uma pedra. E não vale à pena tentar ser. Basta perceber que não somos os mesmos todos os dias, e não nos fecharmos na dureza das nossas convicções. A vida flui. Não há, nem pode haver diagnósticos definitivos sobre nós mesmos ou sobre a realidade. As pessoas estão em constante transformação, em permanente interação com uma realidade ampla e complexa.
Mas como interagir conosco, com os outros e com o mundo simultaneamente? Nós, que nos habituamos a organizar a realidade sob o ponto de vista da ordem linear, estabelecemos relações de causa e efeito fechadas e intransigentes, que cerceiam a nossa capacidade de compreender o outro e nós mesmos, na nossa complexa plenitude. Essa dificuldade se suaviza, quando acionamos mecanismos internos que não se detenham exclusivamente na compreensão racional dessa realidade.
Falta-nos acionar conscientemente alguns aspectos que as modernas teorias denominam transdisciplinaridade. “Trans” significa ir além. A proposta é ir além das disciplinas, entendendo-se disciplinas como resultantes de uma abordagem exclusivamente racional da realidade, embasada em paradigmas que faziam sentido no século XVII, quando pensar era sinônimo de raciocinar sob o ponto de vista lógico. Esta foi a fundamentação do pensamento cartesiano.
No século XXI, a noção sobre o pensar de Decartes se ampliou. Ele não estava errado, mas hoje sabemos um pouco mais sobre nossos pensamentos e sobre nossa existência. Conhecemos parte do funcionamento do nosso cérebro e de suas redes neurais. Conseguimos captar o campo eletromagnético produzido pelos nossos pensamentos. Mapeamos múltiplas inteligências. Mergulhamos na forma e nos significados da nossa mente. Identificamos os mistérios e os avanços evolutivos da nossa consciência. Ainda há muito para ser desvendado, mas nossa visão se ampliou em relação à noção de pensamento vigente no século XVII.
Ampliando-se o entendimento sobre o nosso pensar, amplia-se também a noção de conhecimento, entendido como produção deste pensar em contato com a realidade. Entram em cena as múltiplas dimensões humanas, do orgânico ao espiritual, com suas diferentes formas de inteligência, todas aptas a produzir conhecimento e a intermediar as relações das pessoas com a realidade.
Estas múltiplas dimensões incluem não só uma perspectiva lógica/racional da realidade, mas também as dimensões éticas, vinculadas à expressão prática de valores, à noção de bem comum. As pesquisas a respeito da mente vêm demonstrando que não existe a possibilidade da produção de um pensamento exclusivamente racional, lógico e objetivo, sem nenhuma interação emocional. Pensar, sentir, imaginar, fazer, todas essas potencialidades interagem em um todo indivisível que é a ação humana.
As interações da pessoa consigo mesma, com os outros, e com o mundo, produzem impactos em todas essas dimensões. Vivemos uma realidade com muito mais pontos de contato do que se conhecia anteriormente, e que precisa ser abordada de maneira eficaz e responsável.
Além de toda a significação que as relações humanas adquiriram ao longo da nossa história, surgem novas e importantes responsabilidades, até bem pouco tempo desconhecidas.
A ação de comunicação sedimenta redes neurais nos cérebros das pessoas. Nossas interações provocam alterações anatômicas em nós mesmos e nas outras pessoas, formatando verdadeiras avenidas entre os neurônios por onde transitam as informações. Isso amplia profundamente nossa responsabilidade nos processos de relacionamento humano. Qual a qualidade das redes neurais que estamos imprimindo nos cérebros alheios? Que tipo de processamento mental as pessoas estão produzindo em função da nossa influência? O quanto este processamento é formatado de forma violenta, consumista, ou indiferente ao sofrimento alheio? Sabemos hoje, o quanto os educadores e todo o processo educativo são responsáveis pela formatação dessas redes neurais.
O processo educativo possibilita a construção de conhecimento, desperta vocações, forma caráter, e formata cérebros. Este é o tamanho da responsabilidade transdisciplinar.
Se pretendemos tratar das transformações que vêm ocorrendo sob a forte influência destes novos paradigmas, que incluem a dimensão de valores, não podemos perder de vista o grande agente deste processo transformador. Não estamos nos referindo somente a novas técnicas produtivas, organizacionais ou educacionais. Estamos falando de um novo ser humano, do exercício de novas habilidades e competências visando a manutenção da vida na diversidade das suas manifestações.
A harmonia e integração dos relacionamentos, das organizações, da sociedade, dos países e do mundo está diretamente ligada à harmonia interna das pessoas que atuam nesses universos: são as consciências individuais e coletivas atuando, interagindo e se expandindo, criando idéias, sentimentos, ações, dando forma ao mundo em que vivemos.
Não só o nosso corpo passa por períodos de transformação, nossa evolução não é só biológica. Nossas mentes também estão se transformando, evoluindo. Estamos descobrindo outras dimensões do nosso ser. A ampliação da nossa consciência significa também a ampliação do exercício deste ser, reorganizando nossas potencialidades. Com isso, os anseios, aspirações e resultados também passam a ser diferentes. Estamos crescendo. E crescer significa extrapolar limites.
Mas a novidade não é somente a transformação. Novas são também a consciência que temos dela, e a forma com que nos relacionamos com este novo contexto.
Não basta ser inteligente, criativo e transformador. É preciso também acionar o potencial ético, a capacidade de ser benéfico. Algo que podemos chamar de competência amorosa. Uma forma de inteligência vinculada àquilo que a sabedoria universal traduz como amor. Mais do que uma emoção ou sentimento, o amor pode ser compreendido como um valor humano, uma força que congrega, aproxima, harmoniza e integra. Algo que torna o ser humano capaz de compreender, refletir, expressar e praticar ações para corrigir a rota do seu desenvolvimento, reconectar-se com a vida, e mudar os rumos do mundo para uma trajetória viável e feliz.
Tarefa difícil? Nem tanto. Possível? Com certeza. Válida? Mais do que isso, urgente e necessária. O coração se emociona. O conhecimento se expande. O ser humano cresce. E a vida agradece.
 
 
Regina de Fátima Migliori é pioneira no Brasil na execução de projetos para diferentes áreas de atividade centrados em Ética, Valores Universais e Sustentabilidade; é Diretora do Instituto Migliori; Consultora em Cultura de Paz da UNESCO; membro fundador do Instituto de Estudos do Futuro; coordenou o MBA em Gestão com foco em Ética, Valores e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas, e o Programa de Pós-Graduação em Ética, Valores e Sustentabilidade em outras instituições; tem atuado como consultora para governos, empresas e ONGs; é autora de livros, CD-Rom, e programas de e-learning.
 


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