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A boa nova: oportunidades sustentáveis na crise financeira

Publicado em 20/12/2008


A boa nova: oportunidades sustentáveis na crise financeira

Regina Migliori

 

Em meio à crise financeira internacional, aconteceu em Nova York a Conferência Internacional da BSR - Business for Social Responsibility, com um tema bastante desafiador: "Sustainability: Leadership Required”.

Em momentos de crise, os investimentos minguam, e o que mais se vê no contexto empresarial é a interrupção de projetos. Sem dúvida, um dos critérios para a suspensão das ações nas empresas, além da evidente contenção financeira, é o seu nível de relevância e prioridade.

É nesse contexto de poucos recursos e muitos projetos frustrados, que os resultados da Conferência se tornam significativos pelas tendências que apontam. Em momentos como este é possível saber em que medida a agenda da sustentabilidade sofre os impactos da crise financeira, ou seja, com que nível de relevância ele é compreendida.

Um dado importante é que vem sendo abandonado o entendimento da sustentabilidade como um foco pontual de ações específicas, cujos recursos estariam suspensos. Uma abordagem sustentável vem sendo adotada como posicionamento estratégico, direcionando investimentos prioritários. Este é o entendimento daqueles que, tal qual os participantes da Conferência, estão enfrentando a crise como uma grande oportunidade para focar suas estratégias nas premissas da sustentabilidade. Essa é, no mínimo, a nova forma de melhorar performance.

Entre os maiores problemas da atualidade estão as mudanças climáticas, o aquecimento global, a destruição da natureza. Não se trata de uma crise, mas de um risco de sobrevivência da humanidade.  A solução destas questões provavelmente terá que incluir uma revolução tecnológica associada a uma matriz energética mais limpa. Este desafio é uma das grandes oportunidades de superação da atual crise na economia mundial.

Além disso, há novas abordagens se fortalecendo, centradas em valores universais e no respeito pela diversidade. Aos poucos, o eixo econômico vai deixando de se sobrepor permanentemente como único foco prioritário. A crise financeira acelerou as reflexões com este foco. Um alinhamento ético entre as prioridades econômicas, ambientais e sociais vem se fortalecendo, dando origem a diferentes práticas: Economia Verde, Economia Solidária, Negócios Sociais, Setor Dois e Meio, Cultura de Paz, são somente alguns dos modelos em implantação na atualidade.

Este contexto pode redirecionar as bases da pesquisa tecnológica e do sistema financeiro, estimulando inovações e gerando financiamentos para disponibilizá-las no mercado. 

Durante a Conferência foram apresentadas estimativas sobre a economia global. A previsão é de que na economia associada às mudanças climáticas deverá haver um volume de investimentos na ordem de US$ 800 bilhões por ano, por um período de 30 anos. São US$ 24 trilhões com foco no desenvolvimento de novas indústrias, negócios e serviços com este foco.

Outra conclusão importante é o surgimento dos “empregos verdes”, gerados por segmentos relacionados às novas abordagens econômicas. São empregos que hoje sequer existem, e que provavelmente substituirão os empregos perdidos na economia convencional, fortemente abalada pela crise financeira internacional.

Porém, esta previsão é alentadora e ao mesmo tempo bastante desafiadora. Quem irá ocupar essas posições? Negócios com formatos, procedimentos e impactos inovadores, novas indústrias, tecnologias e modos de produção, talvez a capacitação das pessoas não esteja acompanhando a velocidade dessas mudanças.

Não se trata somente de um novo conjunto de informações. É uma nova forma de ver o mundo, outra maneira de pensar, novas competências, formas de planejar e executar ações, novos relacionamentos,  prioridades, responsabilidades e indicadores. Os profissionais que estão na ativa precisam se adequar rapidamente a este novo contexto. Os jovens e as gerações futuras dependem de um processo educativo alinhado aos novos tempos. Este é um desafio a ser enfrentado conjuntamente pelas empresas, pelo sistema educacional e pelas políticas públicas. Todos são responsáveis pela promoção deste outro tipo de desenvolvimento humano.

Além disso, muitas empresas têm destacado o atual poder de pressão exercido por seus colaboradores à medida que as premissas da sustentabilidade passam a integrar a cultura organizacional. Um eixo de coerência interna torna-se necessário na empresa, sob pena de cair no descrédito com todos os seus públicos. Reputação passou a ser palavra de ordem. Um posicionamento pessoal consciente, responsável e exigente também integra a nova natureza de relação de trabalho. É nesse contexto que pessoas e empresas precisam se tornar atraentes mutuamente. A relação passa a se estruturar em torno de compromissos sustentáveis, e não somente com foco nos resultados da produção de bens e serviços. Trabalho passa a ter significado e relevância ampliados sob a ótica pessoal e empresarial.

Estas são algumas das oportunidades aceleradas pela crise. Neste cenário, não basta a empresa ser saudável sob a ótica financeira. Tem que ser saudável por inteiro, ser sustentável.

Diante da crise, a vitalidade destas possibilidades indicam que estamos diante de um ponto de não retorno. As mudanças virão. Pode-se estar alinhado a elas com convicção ou por conveniência. Mas as tendências indicam que é uma movimentação inevitável, e naturalmente surgem diferentes expectativas.

Este contexto também gera impactos na dinâmica da comunicação empresarial. Entre os novos desafios estão a mudança de posicionamento estratégico das áreas de comunicação, a ampliação das atribuições e responsabilidades, a incorporação de novas tecnologias, a evolução das abordagens sobre comunicação e relacionamento sustentável, e a conseqüente exigência de um novo conjunto de competências de suas equipes. Agências, prestadores de serviço, consultorias, todos estão diante da necessidade de incorporar uma nova linguagem, abordagens sistêmicas, outra visão de mundo, gestão de ativos tangíveis e intangíveis, e uma postura de compromisso ético com grupos múltiplos – os stakeholders.

Por sorte ou azar, tudo isso está acontecendo na nossa vez. Os mais acomodados acharão que é uma imensa falta de sorte ter que se movimentar tanto e assumir este novo conjunto de responsabilidades. Os mais arrojados se sentirão estimulados com os novos cenários, comprometidos com possibilidades criativas, inteligentes, transformadoras e benéficas, vinculadas às suas atividades.

Este é o perfil exigido do profissional de comunicação da atualidade. Em tempos natalinos, ele pode ser o portador da boa nova: outro mundo está surgindo, um pouco melhor.



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