login:      senha:

A+ | A-


Feliz ano-novo: celebrar, refletir e sonhar

Publicado em 20/12/2008


Feliz ano-novo: celebrar, refletir e sonhar

Regina Migliori

Final de ano é época em que sopram ventos de mudança. Parece que tudo é finalizado para que o novo ano se instale com seu conjunto de esperanças renovadas. Ou não?

Sem dúvida, os votos de felicidade futura estão valendo, mas não sem rever algumas pendências que se arrastam em direção ao ano que chega.

Fechamos o ano sem saldar uma dívida importante com a juventude. Pouco mais da metade dos jovens brasileiros até 16 anos concluiu o ensino fundamental, e menos de 50% dos que têm 19 anos chegou ao término do ensino médio. Sem dúvida avançamos, mas é ainda muito pouco para que não fiquemos constrangidos na hora de desejar feliz ano novo para essa moçada.

Ano novo feliz será aquele em que todas as crianças e jovens estiverem na escola, gostando de estar lá, desenvolvendo suas potencialidades em um processo genuíno de aprendizagem e evolução humana, acolhidos por um ambiente inteligente, criativo, transformador e benéfico. Que estejam longe da ignorância e da violência que possa existir em casa, nas ruas, na falta de oportunidades, na criminalidade ou no sistema prisional.

Um ano novo feliz será aquele em que a reverência pela natureza terá sido recuperada, e a competência humana não seja praticada às custas da depredação.

Também será muito feliz o ano novo em que a Declaração Universal dos Direitos Humanos, a Carta da Terra, o Protocolo de Kioto, e outros tantos documentos relevantes deixem de ser citados somente em eventos bem intencionados e passem a vigorar pra valer como diretrizes de ação da humanidade sob a ótica econômica, ambiental e social.

Um belo desejo de ano novo a se concretizar é o que envolve a paz. Será belíssimo o ano em que os diferentes não se estranhem tanto! Continuarão a existir, sabendo conviver com suas diferenças e conflitos, mas sem guerras. Um tempo em que cada um possa existir do jeito que é, sem padrões tendenciosos e excludentes para o politicamente correto, o democraticamente americano, o esteticamente similar à Gisele Bunchen, o religiosamente isso ou aquilo, e outros tantos estereótipos que distanciam as pessoas do que é essencial. Que seja permitido prioritariamente ser humano. Que o resto seja acessório, pouco pertinente na hora de nos relacionarmos.

Alguém dirá que seguimos um pouco devagar, mas estamos indo. Porém, há um desejo de ano novo que não pode mais esperar.

Fechamos 2008 com uma pendência inaceitável. Alargamos nossa consciência sobre sustentabilidade; evoluímos em termos tecnológicos; os níveis de consumo aumentam tanto que talvez o planeta não suporte; na recente crise financeira, socorremos rapidamente o sistema financeiro e a indústria automobilística, refizemos nossas contas e estamos seguindo em frente; aumentamos significativamente nossa capacidade de produzir alimentos; mas todo este acelerado patamar de atividades não impediu que neste ano mais de 40 milhões de pessoas fossem atingidas pela fome.

De acordo com um levantamento divulgado em 9 de dezembro pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), o número de famintos no mundo, que em 2007 era 923 milhões,  chegou a 963 milhões. Para essas pessoas, ter o alimento mínimo todos os dias para uma vida ativa e saudável é um sonho distante, que não se concretizará com a entrada do ano novo.

Hafez Ghanem, Diretor-Geral Adjunto da FAO, lamenta que a falta de acesso à terra e ao trabalho, combinadas com a alta dos preços dos alimentos, das sementes, fertilizantes e outros insumos,  a dificuldade de acesso dos agricultores mais pobres às condições que lhes permitam aumentar a produção, tudo isso provocou o aumento da fome no mundo.

É difícil celebrar o ano novo sabendo que em algum lugar deste planeta, muitas vezes não muito longe, há seres humanos em situação de miséria. Mas se não dá para celebrar em plenitude, também não dá só para lamentar. O que o mundo precisa não é de caridade permanente, seja ela profissional ou voluntária. Socorrer os famintos, embora necessário e urgente, não pode se transformar em ação recorrente. Que essas pessoas bem intencionadas sejam competentes para planejar ações eficazes para erradicar a fome do mundo. E que não sejam atrapalhadas por um sistema insustentável. Que a economia e as finanças sejam reconduzidas aos saudáveis níveis de interação com o humano, o ético, e o natural.

Que em 2009 possamos celebrar novas regras para o sistema financeiro, direcionando a poupança da sociedade para financiar a produção e não o cassino virtual financeiro.  Que o crescimento do PIB e os demais indicadores econômicos possam evoluir para um modelo em que seja possível celebrar a evolução das oportunidades para os jovens, a diminuição da desigualdade social, a preservação da natureza e a consolidação de uma cultura de paz.

Celebrar as esperanças, e trabalhar muito para que elas se concretizem. É assim que se deve insistir na possibilidade de um feliz ano novo. Afinal, quem não sabe sonhar, não sabe planejar.

 



CopyleftCopyleft - é livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.


INCLUIR COMENTÁRIOS:




COMENTÁRIOS





PARCEIROS

Plurale Eco Business Nós da Comunicação UMApaz Mercado Ético
busca







Memória com afeto
Autora do livro "Neurociência e Educação" diz que o cérebro registra melhor informações quando elas tem algum significado ou propósito. Descoberta dá nova direção ao tratamento de doenças como Alzheimer.

confira na íntegra »
RECEBA NOSSA NEWSLETTER
Informe seu e-mail para receber nossas novidades:

E-Mail:




dialética