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A Paulicéia tem futuro – não custa nada sonhar

Publicado em 20/10/2008


A Paulicéia tem futuro – não custa nada sonhar

Regina Migliori

Quem não sabe sonhar não sabe planejar. Pensar o futuro de São Paulo é pensar grande. Somos alguns milhões de pessoas honrando as origens do nome da nossa cidade, inspirado em um personagem com fortes inquietações, convicções e muita energia de ação.

O futuro pode ser uma continuação do presente, o resgate do passado, ou possíveis saltos para alternativas distantes da realidade atual. Há um futuro imaginável, que acontece quando a gente decide fortalecer tendências atuais. Mas há também um futuro desconhecido, que se transforma em realidade sem raízes com o que já vivemos. Alguns caminhos são trilhados porque escolhemos entre as opções disponíveis. Outros se apresentam como pontos de não retorno, quando não há escolhas: ou vai, ou vai!

São Paulo é tão múltiplo que oferece todas estas possibilidades de futuro.

Mas os saudosistas de plantão podem se acalmar, pois uma coisa é certa, nada no mundo desaparece totalmente. Qualquer mudança não arrasa por completo o que já existiu. Sempre sobra alguma coisa, nem que seja a vaga lembrança de uns poucos.

Ouve-se falar que São Paulo precisar ser uma cidade sustentável. É possível identificar algumas tendências e escolher quais queremos fortalecer. Mas há situações onde não existe nem sinal de fumaça, quanto mais análise de tendências. Nesses casos, vamos ter que inventar soluções. Não sei se é sorte ou azar, mas é na nossa vez que estes desafios se concretizaram. Temos que encontrar novas fórmulas para viver e conviver. Reinventar o jeito paulistano. Um jeito próprio, mas universal. Este é o tamanho do dilema.

A diversidade humana está muito bem representada. Temos diferentes desejos, sonhos e necessidades se manifestando: anseios de sobrevivência e transcendência, tudo ao mesmo tempo. Há chances de virar uma babilônia de desencontros, ou então acolhemos toda essa diversidade para construir algo harmônico. Até porque a matéria prima da harmonia são as diferenças. São Paulo saberá ser competente para organizar essa harmonia, isso faz parte da nossa identidade. Mas ser competente não é só saber fazer. É também saber como, porque e para que fazer.  Portanto, só nos resta tentar mudar. Ou então ir embora. Mas não é com esses que eu estou falando.

Precisamos de casa, comida, transporte, emprego, e outras formas de garantir a nossa subsistência. Mas as pessoas também precisam atender às necessidades da consciência: amor, paz, felicidade, dignidade, justiça, conhecimento, aspectos relevantes para a existência individual e coletiva.

São Paulo pode evoluir como uma metrópole onde seja possível atender os níveis do ser, ter, estar e fazer.  Esta chance existe. Então dá pra sonhar e ser competente em realizar.

Podemos vir a ser uma cidade onde as contribuições individuais sejam percebidas como relevantes, e que em contra partida cada um identifique sua responsabilidade com o bem comum. Isso não é utopia. O nome da coisa é cidadania. No futuro talvez mudem o nome. Mas se a gente se lembrar que houve uma revolução onde a meta era liberdade, igualdade e fraternidade, então não custa nada tentar. Mas sem revoluções, armas e mortes. Não mais do que já vivemos por aqui.

Com o tanto de oportunidades existentes, é possível pensar em uma re-significação da nossa imensa capacidade produtiva. Ampliar os indicadores atuais, incluindo resultados para além dos níveis de empregabilidade, produção e capacidade instalada, contemplando também os aspectos de dignidade, significação e impactos benéficos de todo este trabalho para a sociedade.

Em tempos de globalização, vale lembrar que a noção de trabalho não é universal. São Paulo caminha para oficializar essas inúmeras formas de se trabalhar. Tem gente afirmando que o emprego de carteira assinada vai diminuir, talvez acabar de vez. Então vamos acionar as nossas inteligências, aperfeiçoar as alternativas existentes e criar outras. São Paulo gosta dessa experimentação: trabalha-se em casa, no parque, nas horas em que não se está fazendo outra coisa mais importante, pela internet, pelo celular, em reuniões, na rua – você decide. O importante é contribuir de alguma forma, fazer algo significativo para si mesmo e para os outros. Isso tudo é tendência nas discussões sobre o mundo do trabalho.

As relações pessoais estão se transformando. Tem gente que se apavora com os novos modelos de família. Mas vamos falar das chances de dar certo. Imaginar as múltiplas possibilidades das pessoas se organizarem em uma estrutura familiar amorosa. Então, que se unam e sejam felizes. E se quiserem ter filhos, que amem e eduquem as nossas crianças, sejam filhos biológicos ou não. Elas precisam muito disso. Um pai que abusa, uma mãe que bebe, uma família desestruturada, tudo isso atinge profundamente uma criança, independente da classe social.

Mas criança também precisa de escola. Será que precisa mesmo? Educação não é sinônimo de escola. No futuro São Paulo pode oferecer um tipo de educação que substituirá o currículo fixo (aquela coisa onipotente que prevê o que você precisa saber daqui a 20 anos) por objetivos de aprendizagem trabalhados em centros colaborativos com múltiplas áreas de conhecimento disponíveis. Já imaginou que delícia poder aprender com prazer, tendo a sensação de que suas potencialidades estão de fato em desenvolvimento!

Será um bom começo se a gente passar a acreditar que não adianta nada alguém dizer que ensinou, se ninguém disser que aprendeu. Isso vale também para a formação dos nossos profissionais – sairão da escola sabendo o que fazer, ao invés de ficarem à mercê dos infindáveis programas de treinamento. Uma coisa é manter-se em evolução, outra é passar o resto da vida preenchendo falhas de aprendizagem.

Mas, e a pobreza e a exclusão social, será que têm solução? Depois do que aconteceu nestas últimas semanas, quando apareceu um mundaréu de dinheiro para salvar o sistema financeiro global, acho que não é tão difícil arrumar recursos para as vidas humanas em situação de pobreza e sofrimento. Então imaginemos uma cidade com uma boa distribuição de renda. Isso nem é futuro, pois em muitos outros lugares do mundo já acontece.

Mas há outras possibilidades para lidar com a eliminação da miséria e da pobreza. Há modelos sociais colaborativos, solidários. Então, São Paulo também pode ser assim.

Outra coisa importante: abaixo os hospitais como depósitos de doentes. Serão substituídos por centros de promoção da saúde, onde as pessoas cuidem do corpo, mente, espírito, e o que mais tiver que cuidar para se manter saudável. Se adoecer, (e as pessoas adoecerão menos se estiverem mais felizes e bem cuidadas) o atendimento incluirá o instrumental médico e o carinho da família, de um amigo, ou de quem mais puder estar por perto.

Digamos que São Paulo será uma cidade mais solidária do que já é, se tiver mais oportunidades de praticar. Não só nos momentos de catástrofes.

A religião do futuro não terá intermediários com o divino e o sagrado. Será um processo de auto-realização. Uma mudança de foco do deus no céu para o deus no coração. Seja lá o que as pessoas decidam sobre sua vida, que o façam com princípios éticos, benéficos, amorosos,  respeitando a si mesmo, à vida e ao próximo.

É inevitável que a tecnologia esteja cada vez mais presente. Mas será reconduzida ao seu devido lugar de ferramenta. Computadores podem ser inteligentes, mas não terão iniciativa nem responsabilidade. Inteligência não é sinônimo de consciência. Então que se desenvolva a inteligência artificial, novas aplicações nas comunicações, transporte, produção, etc.

Os veículos não mais poluirão. No futuro, o combustível será outro: não será necessário destruir a atmosfera nem ocupar imensas áreas com monocultura. E o transporte coletivo terá uma rede muito bem instalada desde o Rodoanel, integrando a cidade à região metropolitana,  passando por toda a periferia, até o centro da cidade. Conforto, velocidade, pontualidade farão parte do cotidiano paulistano. Congestionamentos serão lembrança dos tempos difíceis.

O esgoto estará 100% tratado: Tietê, Tamanduateí e Pinheiros serão navegáveis. As marginais terão se transformado em um grande parque, com acesso fácil aos habitantes de todas as nossas regiões.

O futuro é possível. Mas cuide-se, nossa Paulicéia será o que fizermos dela.

 



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