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O que acelera e trava a sustentabilidade

Publicado em 30/9/2010


O que acelera e trava a sustentabilidade

Regina Migliori

 

Às vezes me surpreendo com o ar de novidade no tratamento a alguns temas. Por outro lado, esta mesma perseguição do novo alimenta um ar blasé adotado por alguns, que em uma espécie de déjà vu, têm a impressão de já ter visto ou experimentado algo que aparentemente está a ser experimentado pela primeira vez. Este é um mal do nosso tempo.  Tudo fica velho rápido. Tão rápido, que ao se revelar o novo, já parece conhecido e desgastado.

Por um lado é bom. A gente se renova. Mas também angustia. Parece que nada dá conta de atender às nossas necessidades e desafios. Idéias, propostas, conceitos, notícias vão se sobrepondo rapidamente. Até esta constatação está ficando velha!

Mas é possível apaziguar a ansiedade e a velhice da informação. O envelhecimento se dá no tempo horizontal, na trajetória do presente, passado e futuro.  Mas há outro tempo, de sensação vertical. Um mergulho nas profundezas do conhecimento revela o que não envelhece. Uma sabedoria estável, que de tempos em tempos vem à tona em nova roupagem.

Essa viagem vertical pode acontecer com a noção de sustentabilidade.

Segundo o Relatório Brundtland, de 1987, sustentabilidade é suprir as necessidades da geração presente sem afetar a habilidade das gerações futuras de suprir as suas. Esta definição já impactou como novidade, mas há quem a veja com ares de uma quase senhora balzaquiana. Já vimos passar políticas, modelos de gestão, empresas, marcas, teorias, indicadores, iniciativas e comportamentos que lograram sucesso e outros nem tanto. Será que a noção de sustentabilidade está envelhecendo? Ou é o conhecimento perene, que desafiadoramente se revela das profundezas do tempo vertical?

Um mergulho em noções muito antigas pode revelar aspectos perenes da sustentabilidade,  presentes nas culturas, filosofias e tradições ancestrais do oriente e do ocidente.

Deste mergulho, podemos recuperar os yamas e nyamas. São critérios citados nos Upanishades, escrituras milenares em que se lêem especulações filosóficas sobre os conceitos da cultura dos Vedas e dados da tradição hindu pré-ariana. Sua redação remonta a 1.000 anos aC. , e os conceitos aí registrados são ainda mais antigos.

Os yamas formam um conjunto de restrições, enquanto que nyamas são recomendações. São comumente interpretados como princípios éticos que guiam as relações com os outros e consigo mesmo.

 

Na atualidade, chamaríamos de código de conduta, do tipo que não se restringe a proibir o que não deve ser feito, e sim provocar a reflexão sobre riscos e estimular comportamentos recomendáveis. Sob esta ótica, é leitura muito esclarecedora para quem exerce qualquer função que exija a competência de saber inspirar, motivar, direcionar ou liderar a si mesmo e às outras pessoas.

 

Do conjunto original de yamas e nyamas, o sábio Patandjáli fez uma síntese no século 4aC. Concentrou-se em cinco aspectos que devem ser controlados, e outros cinco a serem estimulados. São raízes profundas de muitos dos atuais desafios da sustentabilidade, e merecem um olhar atualizado.

São yamas, aspectos que exigem controle, esforço e atenção: Ahimsa (não violência); Sathya (veracidade); Astheya (não roubar); Brahmacharya (contenção de necessidades); Aparigraha (não ganância).

Ahimsa corresponde ao desenvolvimento da capacidade de agir sem causar sofrimento, prejuízo ou dano a si mesmo, aos outros, à sociedade, à natureza. Vale lembrar que a violência nem sempre é visível: você mesmo ou um agente externo pode minar a sua criatividade, sua esperança, sua confiança. Mais ainda, a violência pode ser uma armadilha sedutora, extremamente envolvente quando emerge de forma sutil e subliminar, aproveitando-se da ignorância, da falta de sensibilidade ou de discernimento, e se instala com ares de benfeitoria ou progresso.

Também exige esforço, a manutenção de Sathya, a veracidade: sermos verdadeiro nos pensamentos, sentimentos, palavras e ações. Isso requer cuidado com a fragilidade de uma falsa imagem, o distanciamento em relação aos compromissos genuínos com a real identidade. Não há a necessidade de se expor e se tornar vulnerável, mas os tempos atuais exigem transparência e altos níveis de comprometimento, como indivíduo, empresa, instituição, ou governo.

Em tempos de corrupção, bem lembrada é Astheya, não roubar. Mas além do desejo de obter algo alheio, é também importante não tomar a bagagem de vida do outro. Acreditar naquele princípio da física quântica que afirma que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço.

Ou seja, não querer ser o que não é, e respeitar o espaço do outro. Não se compare a ninguém, a não ser ao nível de excelência que você mesmo pode ser. Saber ser a sua própria inspiração de desenvolvimento, e conseguir chegar lá. Digamos que é uma estratégia de posicionamento, como indivíduo ou empresa.

 

Além disso, este princípio nos permite desenraizar crenças subconscientes ligadas à falta e à carência, que promovem a cobiça e a necessidade constante de acumular coisas, ou o medo de disponibilizá-las. Sonegar qualquer coisa é roubar. Quem sonega o melhor de si mesmo, deixa de oferecer ao mundo o que tem competência para realizar. E se achando incapaz, tira de alguém.

 

Consumo consciente, neuromarketing, são noções que cabem debaixo do princípio  Brahmacharya, a contenção de necessidades supérfluas. Quer coisa mais atual? Saber discernir entre o que de fato é necessário, adequado, e o que é introjetado artificialmente de fora para dentro, sem nenhuma raiz prioritária. Um novo mercado, com empresas e consumidores mais consciente de suas reais necessidades e responsabilidades. Na atualidade,  somos compelidos a fazer mais e a ter mais. A prática de brahmacharya nos ensina a ser, sabendo dosar a dependência ao que é externo a nós.

 

Aparigraha , significa não ganância, desapego.  Um princípio muito desafiador, que nos coloca em sintonia com o fato de que tudo na vida precisa ser mantido em movimento. Dinheiro é energia em circulação. Investimentos devem promover a prosperidade, mobilidade social, e não o acúmulo, a concentração de riqueza e a desigualdade.

Entre os nyamas, os aspectos a serem estimulados, temos Sauchan (pureza); Santôsha (bom humor); Tapas (auto-superação); Swadhyaya (auto-conhecimento); Ishwarapradidhana (fé). 

Sauchan está na crista da onda na questão socioambiental. Pureza no que comemos, vemos, ouvimos e pensamos. Estamos sujando o planeta, e mantê-lo limpo é questão de sobrevivência para a humanidade. Porém, por maior que seja o desafio, não se pode perder o bom humor, a alegria, a graça e o entusiasmo pela vida: Santôsha.

 

Auto-superação, esforço e disciplina estão em contidos em Tapas, sem o qual nenhum outro princípio se realiza. Da mesma forma, Swadhyaya, o auto-conhecimento, exige um mergulho interno na nossa própria natureza e condições de ação no mundo. Como organização, é o que mobiliza a prática da missão, visão, valores, políticas, na gestão da própria identidade empresarial.

E finalmente Ishwarapradidhana, o princípio que conduz àquilo em que se tem fé. Não basta ter acesso à informação. Para que o conhecimento se transforme em ação, é preciso acreditar no que se sabe, considerar relevante, prioritário, comprometido, e sentir-se capaz de agir.

As palavras podem parecer estranhas e historicamente distantes, mas seu conteúdo é extremamente atual. Os yamas e nyamas não implicam em ser bom ou mau, mas nos mostram como nossos atos trazem implicações para nós mesmos e para o mundo. Facilitam o entendimento dos nossos desafios, e aproximam o distante futuro descrito no conceito de sustentabilidade do Relatório Brundtland. As responsabilidades atuais e futuras emergem deste mergulho nas profundezas da sabedoria milenar e perene.

 

publicado no Mercado Ético em 30/09/2010

www.mercadoetico.com.br

 

 

 

 



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