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Ser Sustentável – uma nova consciência em educação

Publicado em 19/8/2008


Regina Migliori
(publicado na revista Super Escola)
Um mundo com muito mais pontos de contato do que se conhecia e que precisa ser abordado pelas pessoas de maneira benéfica e responsável. Este cenário é muito novo. Estamos habituados a lidar cotidianamente com nossos desafios. Mas o que está diante de nós não é só um novo desafio, é uma nova categoria de desafios.
Pela primeira vez, na trajetória da humanidade, estamos sendo desafiados a nos entendermos como humanidade. Os desafios econômicos, as questões ambientais, a miséria humana, os desafios sociais e geo-políticos tomaram tamanha dimensão que hoje dependem de providências inéditas, sem nenhum referencial anterior.
Não seremos capazes de solucionar essas questões sem nos entendermos como humanidade, sem construirmos um consenso global. E isso é inédito. Em nenhum outro momento da nossa história, os seres humanos foram desafiados a assumir responsabilidades coletivas como humanidade.
Não sabemos como fazer isso. Nossa geração está diante do imenso desafio de construir metodologias, sistemas, abordagens que nos habilitem a resolver questões globais, e deixar encaminhamentos benéficos como herança prática para as futuras gerações.
Isso vem exigindo a ampliação da visão do ser humano sobre si mesmo, descobrindo e desenvolvendo novas potencialidades, acionando cérebros, mentes e consciências de forma mais criativa, flexível, inteligente e harmônica.
O contexto global e a necessidade de soluções urgentes nos coloca diante da imensa diversidade humana. Somos todos seres humanos, e isso é o que nos une. Mas cada um de nós é único na forma como expressa suas potencialidade, e isso nos diferencia. Qualquer tentativa estabelecer padrões homogêneos para as pessoas resulta em totalitarismo, onipotência e intolerância. Esta percepção faz surgir as noção de rede de relações, de interdependência, onde os diferentes se complementam.
As diferenças são a matéria prima da harmonia que sustenta a vida. A diversidade é manifestação da paz quando percebida e praticada a partir de parâmetros harmônicos de relacionamento.
A paz, entendida com um valor humano é ponto de partida, e não uma meta a ser atingida. Toda vez que colocamos um valor como um objetivo e não como a raiz das ações,  corremos o risco de cair na armadilha de que os fins justificam os meios. É assim que jogamos uma bomba no país vizinho, antes que ele jogue nos bombardeie,  justificando que fazemos isso para atingir a paz.
Paz não é ponto de chegada, meta a ser atingida. É ponto de partida, é o valor onde enraízamos o respeito pelas diferenças. Paz não é ausência de conflitos, padrão homogêneo de resultados. É administração das diferenças, a inteligência da harmonia em ação.
Enraizando nossas ações neste respeito pela diversidade é que se torna possível construir uma cultura de paz, baseada em padrões harmônicos de resultado, onde a diversidade é percebida como a preciosa matéria prima da harmonia. Tal qual uma orquestra, onde os tons, ritmos, intensidades se confundem e formam um todo maravilhosamente indivisível.
É a força da diversidade que faz cada ser humano buscar seu próprio caminho de desenvolvimento. Podemos aprender a compreendê-lo e mostrar-lhe uma possível trajetória. Porém, a escolha em adotar o caminho apontado, optar por outro, ou ficar estancado à beira da estrada - nisso ninguém pode interferir - estas decisões são da responsabilidade de cada um.
Somos responsáveis pelos sonhos que sonhamos, pelos que desistimos, e por aqueles que levamos em frente. Se algo muda em nós, tudo à nossa volta muda também.
Nossa vida está vinculada a uma estrutura de conexões estabelecida em níveis que nos integram a nós mesmos, ao nosso universo de ação, e à repercussão da nossa atuação, cujos impactos são muito mais amplos do que temos identificado.
A interação entre as pessoas e as relações com o mundo colocam movimento em situações que parecem estagnadas. Certezas internas que podem ser revistas. Situações externas que se modificam. A vida flui. Não há, nem pode haver diagnósticos definitivos sobre nós mesmos ou sobre a realidade. As pessoas estão em constante transformação, em permanente interação com uma realidade ampla e complexa.
Mas como interagir conosco, com os outros e com o mundo simultaneamente? Nós, que nos habituamos a organizar a realidade sob o ponto de vista da ordem linear, estabelecemos relações de causa e efeito fechadas e intransigentes, que cerceiam a nossa capacidade de compreender o outro e nós mesmos, na nossa complexa plenitude. Essa dificuldade se suaviza, quando acionamos mecanismos internos que não se detenham exclusivamente na compreensão racional dessa realidade.
Falta-nos acionar conscientemente alguns aspectos que as modernas teorias denominam transdisciplinaridade. “Trans” significa ir além. A proposta é ir além das disciplinas, entendendo-se disciplinas como resultantes de uma abordagem exclusivamente racional da realidade, embasada em paradigmas que faziam sentido no século XVII, quando pensar era sinônimo de raciocinar sob o ponto de vista lógico. Esta foi a fundamentação do pensamento cartesiano.
No século XXI a noção sobre o pensar de Decartes se ampliou. Ele não estava errado, mas hoje sabemos um pouco mais sobre nossos pensamentos e sobre nossa existência. Conhecemos parte do funcionamento do nosso cérebro e de suas redes neurais. Conseguimos captar o campo eletromagnético produzido pelos nossos pensamentos. Mapeamos múltiplas inteligências. Mergulhamos na forma e nos significados da nossa mente. Identificamos os mistérios e os avanços evolutivos da nossa consciência. Ainda há muito para ser desvendado, mas nossa visão se ampliou em relação à noção de pensamento vigente no século XVII.
Ampliando-se o entendimento sobre o nosso pensar, amplia-se também a noção de conhecimento, entendido como produção deste pensar em contato com a realidade. Entram em cena as múltiplas dimensões humanas, do orgânico ao espiritual, com suas diferentes formas de inteligência, todas aptas a produzir conhecimento e a intermediar as relações das pessoas com a realidade.
Estas múltiplas dimensões incluem não só uma perspectiva lógica/racional da realidade, mas também as dimensões éticas, vinculadas à expressão prática de valores, à noção de bem comum. As pesquisas a respeito da mente vêm demonstrando que não existe a possibilidade da produção de um pensamento exclusivamente racional, lógico e objetivo, sem nenhuma interação emocional. Pensar, sentir, imaginar, fazer, todas essas potencialidades interagem em um todo indivisível que é a ação humana.
As interações da pessoa consigo mesma, com os outros, e com o mundo, produzem impactos em todas essas dimensões. Vivemos uma realidade com muito mais pontos de contato do que se conhecia anteriormente, que precisa ser abordada de maneira eficaz e responsável.
Não basta ser inteligente, criativo e transformador. É preciso também acionar o potencial ético, a capacidade de ser benéfico, de atuar com foco no bem comum. Algo que podemos chamar de competência amorosa. Uma forma de inteligência vinculada àquilo que a sabedoria universal traduz como valores humanos universais.
Os valores humanos nos levam a reconhecer a riqueza da diversidade oferecida por uma realidade complexa e complementar. Nosso agir no mundo passa a respeitar as diferenças numa perspectiva que inclui conhecimento e amor, competência e sensibilidade. Daí a importância de estabelecermos um circuito transdisciplinar não só entre as diversas áreas de conhecimento, mas também entre as múltiplas dimensões humanas e suas próprias formas de produzir conhecimento.
 
Uma visão ampliada de conhecimento nos faz perceber que não basta saber, é preciso viver o que se sabe, e saber o que se vive. Esta é a trajetória de uma ação que prevê o contato com as nossas potencialidades de forma criativa e harmônica, desenvolvendo nossas competências em conhecermos e expressarmos aquilo que verdadeiramente somos.
Mas é preciso acrescentar mais um ingrediente precioso: acreditar no que se faz. Voltar ver o ser humano como um ser que é capaz de compreender, refletir, expressar e praticar o amor. Mais do que uma emoção ou sentimento, o amor pode ser compreendido como um valor humano, uma força que congrega, aproxima, harmoniza e integra. Algo que torna o ser humano inteligente, transformador, com competência e sensibilidade para capaz de compreender, refletir, expressar e praticar ações visando corrigir a rota do seu desenvolvimento, reconectar-se com a vida, e mudar os rumos do mundo para uma trajetória viável e feliz.
A partir destes pressupostos é possível construir  um modelo que integra novos conhecimentos, amplia possibilidades benéficas e sustentáveis. Essas idéias não são novas, ao contrário, emergem na história da humanidade em todas as épocas. Neste final de século temos visto o surgimento de inúmeras abordagens do universo, do planeta, e de nós mesmos baseadas na urgência da recuperação de um ingrediente precioso para a manutenção da vida: o amor, compreendido como um valor universal.
Os desafios da sustentabilidade nos impõem a visão da integração, da complexidade e da complementaridade. Porém, só o exercício do amor nos leva a esta aproximação, à integração da diversidade. Uma cultura de paz é o resultado da harmonia entre os diferentes. É a substituição do julgamento pelo discernimento. É a compreensão do princípio da complementaridade entre a multiplicidade que a vida nos oferece.
Estar em paz consigo mesmo é conseguir encontrar um fio condutor coerente e harmônico entre o que somos, sentimos, pensamos e fazemos. Estar em paz com os outros é reconhecer no outro, um ser humano que, assim como eu, busca a felicidade e a auto-realização. Estar em paz com a natureza é sentir-se parte integrante da vida. É viver e deixar viver.
A paz está acima da ideologia, acima de qualquer crença ou religião. É maior do que qualquer interesse pessoal ou coletivo. A paz não é um estado de espírito. É um valor que se reflete em uma atuação concreta, clara, límpida e transparente enraizada na nossa disposição de lidar com a complexidade e a diversidade.
Onde há conflitos há diferenças. Se há diferença e julgamento haverá os certos e os errados, os vencedores e os vencidos, o distanciamento e o isolamento. Onde há isolamento há radicalismos. Polaridades radicais e antagônicas geram uma atitude de ataque e defesa. Quem conquistou uma posição defende, e quem quer conquista-la ataca. Assim nasce a violência.
O momento de identificação das diferenças é que nos encaminha para o antagonismo ou para a complementaridade. A perspectiva complementar gera equilíbrio entre forças e fraquezas, e faz nascer a possibilidade da convivência harmônica. O padrão harmônico prevê o convívio da diversidade, e difere da pretensão homogênea que prega um único modelo como superior ou ordenador da realidade. A vida é rica e complexa. Temos que reconhecer com humildade que nossos referencias são sempre menores do que a realidade observada, e somente o discernimennto, em lugar do julgamento, abre espaço para a compreensão daquele que difere de mim, do sei e acredito. Reconhecer no outro o direito de existir munido de suas idéias e de suas crenças é o início de uma atitude que constrói a cultura de paz.
Essa atitude abre espaço para as diferentes verdades. Nos liberta da falsa convicção de que existe uma verdade suprema e única. Verdade é a expressão íntegra das minhas potencialidades.  Não é aquilo que eu expresso como verdadeiro, mas sim aquilo que verdadeiramente sou e expresso. A essa verdade se subordina a nossa inteligência como mecanismo de compreensão, criação e expressão. Quando estabelecemos um ambiente de paz e de criação, abrimos espaço para, de leve, tocarmos nesta verdade. É ela que dá significado e dignidade à própria vida. Não é algo que eu sei. É algo que eu sou e que reconheço em mim e nos outros.
Esta verdade  quando manifesta, nos conduz a uma atitude de extrema coerência interna. Faço aquilo que sei em plena harmonia com o que penso e sinto. Não há hiatos. Todos já percebemos que inúmeras vezes adotamos novos conceitos e metodologias, estabelecemos novos objetivos e estratégias, mas entre o que sabemos e a nossa expectativa de resultados paira um vazio, um grande espaço em branco que deve ser preenchido pela nossa atuação. Quantas vezes já estivemos diante de idéias absolutamente interessantes, apropriadas e coerentes, porém não sabemos como implementá-las. Este é o ponto: se está na cabeça, na fala e não está nas mãos, é porque na realidade não sabemos. Precisamos rever nosso conceito sobre “verdades”. Algo verdadeiro em mim, é aquilo que inunda todo o meu ser, faz sentido para cada uma das minhas células, e me coloca em ação com leveza, firmeza e tranquilidade.
O que a cabeça pensa deve ser examinado criticamente pelo coração, e a decisão acertada será carregada pelas mãos. Assim estarei agindo coerentemente. A ação correta e coerente não é um ato isolado, é um processo que vai permeando a nossa vida. É uma determinação para o bem.
É responsabilidade do educador não permitir que um estoque negativo se estabeleça nas mentes das crianças e jovens. Perceber que há algo maior, mais amplo, que às vezes escapa ao nosso entendimento, mas que se mantém direcionando a nossa atuação para o crescimento, o auto-conhecimento e o bem comum. Adotar uma atitude  permanentemente criativa e construtiva que nos permita construir algo melhor, sem julgamentos, culpas, vencedores e vencidos.
Esta é uma  conquista do ser humano que ama e não fere, não magoa, não machuca como ação, reação ou proteção. Uma conquista que nos leva à ação não violenta. E entendamos que violência não é só um ato físico. Por trás da mão que fere há um universo violento que nos faz desperdiçar energia, conhecimento, emoção, tempo, comida, dinheiro. Ignorar o outro é um ato de violência. É negar a sua existência.  É matá-lo, em última instância.
Podemos permitir a emergência de uma competência amorosa. O amor é o impulso que nos mobiliza para a criação. O conhecimento sem amor gera preconceitos e antagonismos, e nos leva ao confronto e à destruição. O amor nos permite atender aos anseios de sobrevivência e de transcendência, abrindo as portas de nossas mentes para a criação de novas idéias, e os nossos corações para a integração e a cooperação.
Conhecimento, criatividade, potencialidade, tecnologia, progresso, desenvolvimento, somente estes aspectos não nos garantem uma mudança de rota em direção a um mundo melhor. Temos conhecido inúmeras pessoas geniais voltadas para a destruição. É preciso encontrar outras premissas, que nos levem a outros resultados, algo que possa integrar nossa competência e nossa sensibilidade.
O que se propõe é uma trajetória flexível e integrada em direção a um mundo menos violento, mais cooperativo, mais competente, viável e em paz. A este cenário, chamamos de sustentabilidade.
Além de toda a significação que o papel do educador adquiriu ao longo da nossa história, surgem novas e importantes responsabilidades, até bem pouco tempo desconhecidas.
As relações humanas sedimentam redes neurais nos cérebros das pessoas. Nossas interações provocam alterações anatômicas em nós mesmos e nos outros, formatando verdadeiras avenidas entre os neurônios por onde transitam as informações. Isso amplia profundamente nossa responsabilidade nos processos de relacionamento humano. Qual a qualidade das redes neurais que estamos imprimindo nos cérebros alheios? Que tipo de processamento mental as pessoas estão produzindo em função da nossa influência? O quanto este processamento é formatado de forma excludente, impedindo a expressão de determinados potencias? Te onde essas redes neurais são estruturadas com base na violência, na necessidade de consumo desenfreado, ou com absurda indiferença ao sofrimento alheio? Sabemos hoje, o quanto os educadores, a família e todos os que participam do processo educativo são responsáveis pela formatação dessas redes neurais que formam a nossa estrutura cerebral.
Evoluímos a ponto de saber que o processo educativo possibilita a construção do conhecimento, desperta vocações, forma caráter, e formata cérebros. Este é o tamanho da responsabilidade transdisciplinar. O educador é responsável pelo desenvolvimento integral do ser humano: cérebro,mente e consciência.
Se pretendemos tratar das transformações que vêm ocorrendo sob a forte influência destes novos paradigmas, não podemos perder de vista o grande agente deste processo transformador. Não estamos nos referindo somente a novas técnicas. Estamos falando de um novo ser humano, do exercício de novas habilidades e competências visando a manutenção da vida na diversidade das suas manifestações. Um ser sustentável.
A harmonia e integração dos relacionamentos, das organizações, da sociedade, dos países e do mundo está diretamente ligada à harmonia interna das pessoas que atuam nesses universos: são as consciências individuais e coletivas atuando, interagindo e se expandindo, criando idéias, sentimentos, ações, dando forma ao mundo em que vivemos.
Não só o nosso corpo passa por períodos de transformação, nossa evolução não é só biológica. Nossas mentes também estão se transformando, evoluindo. Estamos descobrindo outras dimensões do nosso ser. A ampliação da nossa consciência significa também a ampliação do exercício deste ser, reorganizando nossas potencialidades. Com isso, os anseios, aspirações e resultados também passam a ser diferentes. Estamos crescendo. E crescer significa extrapolar limites.
 
 
Regina de Fátima Migliori é pioneira no Brasil na execução de projetos para diferentes áreas de atividade centrados em Ética, Valores Universais e Sustentabilidade; é Diretora do Instituto Migliori; Consultora em Cultura de Paz da UNESCO; membro fundador do Instituto de Estudos do Futuro; coordenou o MBA em Gestão com foco em Ética, Valores e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas, e o Programa de Pós-Graduação em Ética, Valores e Sustentabilidade em outras instituições; tem atuado como consultora para governos, empresas e ONGs; é autora de livros, CD-Rom, e programas de e-learning.
 
 
 
 


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COMENTÁRIOS

tamires (tami_angel_007@hotmail.com)

Muuuito bom essa pesquisa continua assim !! Parabéénss ;)

Maria de Fátima Pinheiro de Mendonça (fafah23@yahoo.com.br)

Regina, esse texto está excelente! Aliás, como tudo que você escreve... é a expressão de Saraswati em você!... Sai Ram!





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