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Da pedra lascada à veste robótica: tecnologia é a extensão do nosso ser

Publicado em 5/5/2011


Hoje tive a oportunidade de ouvir o neurocientista Miguel Nicolelis narrar o que está realizando em diferentes áreas de atuação. Há o belíssimo projeto de educação e iniciação científica acontecendo em Macaíba, no Rio Grande do Norte. O cuidado com o desenvolvimento humano se inicia ainda na barriga da mãe, que recebe acompanhamento pré-natal em um moderno centro de saúde.  Há também a escola que funciona complementando o turno escolar, onde 1000 crianças e jovens convivem com a possibilidade de produzir ciência, mais do que isso, aprendem o que ele chama de empreendedorismo científico. E o número de participantes tende a crescer com a ampliação das escolas.

Esses jovens estão imbuídos da cultura de que tudo é possível, sem se aprisionar a modelos, conceito ou pré-conceitos. Convivem com a ciência de ponta e também com o orgulho revigorado da sua herança cultural, dos índios Potiguar.

Esta garotada passa a transformar a escola regular, pois com espírito crítico, objetivo e lúcido amplia o questionamento para além das fronteiras curriculares. Para lidar com os desafios dessa ampliação de visão e de comportamento, é ofertado aos professores das escolas públicas, uma formação continuada, onde aprendem a lidar com a ciência e com a colaboração das crianças.

São iniciativas que ajudam o Brasil a resgatar o déficit educacional, criando novas possibilidades de desenvolvimento humano e inserindo os jovens brasileiros no contexto da pesquisa científica de ponta.

Porém, há uma outra revolução da qual o Nicolelis vem participando, o Walk Again Project, uma iniciativa executada por um consórcio envolvendo diversas universidades ao redor do mundo. Trata-se da libertar o cérebro dos confins do corpo. O foco do experimento é produzir uma veste robótica, que conectada a um chip, é capaz de receber e obedecer os impulsos elétricos gerados no cérebro. Isso permite que uma pessoa tetraplégica, ao usar esta veste robótica, possa a se movimentar. Segundo Nicolellis, além do envolvimento das universidades, há a intenção de mobilizar as escolas públicas, envolvendo os jovens do Brasil, da mesma forma como a corrida espacial para chegar à Lua envolveu as escolas nos EUA.

A hipótese por traz deste experimento é a possibilidade de levar os impulsos cerebrais a um receptor externo, próximo ou distante, capaz de receber os impulsos e interpretá-los. Isso abre uma fronteira para a criação de outros aplicativos ainda inimagináveis para o nosso ponto de vista atual.

Tecnologia não é algo externo a nós. É a extensão do nosso ser. Qualquer ferramenta amplifica uma habilidade humana, seja uma pedra lascada, uma raquete de tênis, ou um computador. O cérebro as assimila como extensões de nós mesmos. Resta saber que tipo de pensamentos e impulsos poderão, em um futuro próximo, partir de um cérebro e manipular um receptor externo. É a mente controlando a máquina. O contrário não é verdadeiro.

A ilusão de construir uma máquina que substitua o cérebro se tornou possível enquanto se compreendia o cérebro como um conjunto de áreas distintas, com funções definidas e localizadas, tendo o neurônio como a menor unidade de processamento. Este mapa e as respectivas áreas de um cérebro cartesiano não existem mais.

O que sabe hoje é que o cérebro opera em rede, de forma sistêmica, não é uma máquina que funciona em unidades de processamento isoladas. Ele é um simulador de realidades, que enxerga antes de ver, que cria e recria imagens a serem testadas em um processo de infinitas possibilidades. Não haverá um computador igual a um cérebro, porque as propriedades emergentes de um cérebro não são computáveis, não se reduzem a um modelo pré-definido e pré-organizado.

Capturar esses impulsos e decodificá-los à distância, como vem fazendo a veste robótica do Nicolelis, é dar início a uma era de “telepatia tecnológica”, muito além da celebrada mobilidade dos dias atuais, que em breve se transformará em fato histórico, lembrado como o tempo em que ainda era preciso apertar um botão para que a máquina realizasse as nossas ordens. Em um futuro próximo, bastará pensar.


Publicado no Blog da Migliori, no Mercado Ético: http://mercadoetico.terra.com.br/blogs/regina-migliori/


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