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A Amazônia existe?

Publicado em 19/8/2008


Regina Migliori
(publicado no Portal Carbono Brasil)
Há uma piada antiga, em que alguém pergunta se a lei da gravidade é da esfera federal, estadual ou municipal. A gente já não ri mais dela porque todo mundo conhece e perdeu a graça. Mas há outras anedotas, bem mais recentes, que todo mundo também conhece, e sobre as quais seguramente não acho nenhuma graça. São as decisões sobre a Amazônia. Este fenômeno geográfico passou a integrar uma esfera imaginária, onde se discute se sua existência é de alçada municipal, estadual ou federal.
No meu tempo de escola, aprendíamos onde ficava a Amazônia, com limites bem definidos e características bastante peculiares. Hoje esta classificação deixou de ser assim tão objetiva, e depende de uma decisão que não é nem ambiental, nem geográfica, é política.
Existe uma Amazônia real. Ali vivem 25 milhões de pessoas, muitas delas remanescentes de culturas milenares. É o lugar do planeta onde se encontra o maior manancial de água doce e a maior reserva de biodiversidade. Todo mundo sabe onde fica. Mas este tesouro da humanidade, absolutamente real, disponível pra qualquer um ir lá e ver, está obscurecido por algumas abordagens imaginárias sobre um lugar chamado Amazônia.
Há a Amazônia do governo federal. Afirma-se que há uma campanha mundial com o objetivo de transformar nossa floresta em um bem público. Há também a hipótese de que possíveis grupos separatistas, por alguma razão nacional ou internacional, declararem independência por lá. As Forças Armadas estão alarmadas.
É nesta Amazônia que nossos governantes se apóiam pra fazer bonito e defender nossa soberania. Em função disso, o presidente Lula garante em brados retumbantes que a Amazônia é nossa! Alguém duvida? Ele também diz que não vai aturar palpite de nenhum país onde não há mais nenhuma árvore em pé. E desde quando não ouvir palpite é garantia de uma ação que de fato promova o desenvolvimento e a preservação da Amazônia?
Se o desastre já é fato em outros países, então vamos aprender com eles, e tratar de não repetir os mesmos erros: não levar os povos milenares à miséria e à extinção, não estimular atividades que arrasam o meio ambiente, etc. A começar por não manter a atitude primária de tomar decisões econômicas que ignoram qualquer outro aspecto da realidade nacional e global. Gabar-se de indicadores econômicos sem lidar com todas as questões sistêmicas, que qualquer gestor da atualidade tem que praticar por conta dos desafios da sustentabilidade.
Há ainda a Amazônia da esfera estadual. Nesta semana o Ministro do Meio-Ambiente divulgou a decisão de que os governos estaduais é que decidirão onde fica a Amazônia, ou seja, se a área desmatada está ou não dentro do território a ser preservado.
Dessa forma, aquela Amazônia da biodiversiodade e dos mananciais de água a serem preservados já não está mais lá pra gente ver. Agora depende de uma decisão estadual. Se o Estado disser que é Amazônia, então é. Se disser que não é, então não é. Custava fazer uma linha divisória e evitar tanto bate-boca?
E há também a Amazônia municipal. A que se ajeita localmente como pode. Há prefeituras que, munidas de muita disposição e esforço, implantam suas estratégias nas imensas áreas territoriais dos municípios da região. Mas há outras, que se acertam de forma até criminosa com interesses capitaneados por brasileiros ou não. Às vezes, para receber apoio de ONGs, estão na Amazônia. Outras tantas, se é para beneficiar algum projeto, então não estão na área de preservação. Esta localização passa a depender do caráter dos envolvidos e do tamanho de seus interesses particulares.
Enquanto isso, conflitos armados se instalam, decisões equivocadas colocam as fronteiras à mercê do tráfico de drogas e do contrabando, culturas tradicionais desaparecem, populações mínguam na miséria sem alternativa de sobrevivência, produtores rurais comprometidos com a preservação ambiental são ignorados, e um bando de safados, brasileiros e estrangeiros, levam vantagem da confusão invadindo, desmatando, explorando e espoliando. Nossa absurda indefinição sobre a Amazônia está dando espaço pra isso acontecer.
A história do Brasil relata nossos ciclos de desenvolvimento vinculados à agricultura e ao extrativismo. O país já viveu do ouro, da borracha, do café, do açúcar. Hoje nos vangloriamos dos recordes de exportação da soja, dos resultados da pecuária, e da extração do petróleo. Sofisticamos a tecnologia, mas continuamos sendo um país que depende da atividade agrícola e do extrativismo. Igualzinho, desde o século XVII.
Esta matriz de desenvolvimento não é sustentável em um país como o nosso. Não que essas atividades não sejam pertinentes, relevantes, e expressem a garra do povo brasileiro. Mas não são suficientes. 
A Amazônia não nos traz somente um desafio ambiental. Ela desafia nossas inteligências e nossas competências para enraizar as futuras ações em outras premissas.
Em primeiro lugar, é preciso definir com clareza onde está a Amazônia. Não é possível que isso seja tão difícil para uma política pública responsável. É um absurdo deixar a definição destas fronteiras para discussões nas esferas estaduais, ou qualquer outra, com direito a questionamentos caso a caso. O que é sinônimo de esticar a decisão a perder de vista.
Tendo definido esta questão primária sobre os limites da Amazônia, que se diga com clareza o que pode ou não fazer por lá. Seja a criatura brasileira ou estrangeira.
Feito isso, além de regular as atividades do agronegócio e do extrativismo, que tradicionalmente já fazem parte do nosso portfólio de desenvolvimento, podemos trazer o século XXI para a Amazônia real.
É possível pensar em outras vocações para o nosso país e para esta região. Por que não temos nenhum ganhador de Prêmio Nobel por pesquisas sobre biodiversidade? A Amazônia pode ser um grande pólo de pesquisa e produção de conhecimento. Olha só o que a combinação “inteligência/ conhecimento /recursos” fez com aquele pedacinho de terra chamado Vale do Silício – mudou o mundo.
Nossa chance é agora. Depois, passou. Aí vão querer nos convencer que a Amazônia foi uma ficção, um cenário de filme do Spilberg, ou um continente perdido, uma outra Atlântida – aquele território que desapareceu debaixo das águas do oceano  porque seus habitantes não foram dignos de ali viver. Triste, não? Tenho netos. Vou agir pra que eles não corram o risco de ouvir essas histórias.


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COMENTÁRIOS

sydney Schmiedel-Foz do Iguaçu-PR (sydcampeador@hotmail.com)

Olha gente,eu só espero que nossas Forças Armadas fiquem bem atentas sobre os destinos da nossa AMAZONIA,especialmente AQUELA DESTINAÇÃO extranha da Reserva Raposa do Sol com absoluta autoridade aos INDIOS???Cuidado,pois aquela reserva ainda poderá se tornar em ALGUM TERRITÓRIO INDEPENDENTE e sob o domínio de alguma potência extrangeira,leia-se USA.Cuidado com alguns POLÍTICOS ENTREGUISTAS da nossa soberania Nacional.Neste particular confio na Responsabilidade das nossas Gloriosas Forças Armadas,na manutenção e integridade de TODO o Nosso território Brasileiro....pensem nisto...abraços do Sydney (Gaucho Livre e Forte)





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