Ninguém é neutro: o novo perfil do profissional de comunicação

20/10/2008 • Regina Migliori

Ninguém é neutro: o novo perfil do profissional de comunicação

Regina Migliori

 

A ação de comunicação não pode se reduzir à informação sobre os fatos. Até porque este tipo de ação totalmente isenta de posicionamento pessoal não existe.

A comunicação é sempre pessoal. Consciente ou inconscientemente, reflete o que a pessoa pensa, sente e acredita. Resulta de atos de intencionalidade, interpretações, escolhas, decisões, inovações. Não há neutralidade. É nessa esteira que se formata o posicionamento da imprensa, vinculando comunicação, conhecimento e seus  impactos sobre a realidade.

O perfil do profissional de comunicação inclui um novo conjunto de competências.  É ele que vê o que muitos também viram e pensa o que ninguém pensou. Transforma o fato, a informação, o fenômeno evidente em um fenômeno surpreendente. É assim que o jornalista e todos os comunicadores produzem conhecimento e inovação, fruto da diferença entre o conhecido e o conhecível. Mas para ver além do que todos viram é preciso ter uma nova percepção sobre a realidade.

Trata-se de uma perspectiva nitidamente diferente daquela que descreve um mundo sem sujeito, onde não há lugar para uma interação inteligente entre os fatos e seu observador. Onde não existe alguém que sente e pensa algo sobre o que comunica. Não se pode confundir objetividade com neutralidade. Ninguém é neutro. Portanto não há isenção de responsabilidade pelo que se comunica e pelos impactos que se pode causar. O profissional de comunicação formata mentes, conduz o olhar da sociedade, chama a atenção para o que ele mesmo considera relevante, estimula medos ou entusiasmos, constrói ou destrói identidades e esperanças. Aliado à tecnonogia e aos meios de comunicação, faz isso tudo com muita velocidade. 

Quem assume o mundo somente como realidade material composta por fatos e evidências objetivas, não leva em conta os encaminhamentos da própria inteligência. Reduz o ser humano a uma máquina que registra e informa os fatos. Mas se existe algo que o computador não tem, é iniciativa e responsabilidade.

Quem pretende representar o mundo como um fenômeno totalmente objetivo, sem nenhum posicionamento subjetivo, exclui toda a esfera ética. Uma visão materialista exclui os conceitos de bem e de mal, e isenta o indivíduo de responsabilidade sobre suas ações. É muito cômodo se comportar como alguém que meramente descreve a realidade com isenção.

A ação de comunicação não é neutra nem isenta. Ela reflete não só a informação, mas vem carregada daquilo que o autor pensa, sente e acredita.  Diante disso, é preciso rever as dimensões de responsabilidade da comunicação. As pessoas têm o direito de acesso à informação. Mas o profissional de comunicação é responsável pelo tipo de informação que divulga, pela forma como compõe suas idéias fundamentadas em suas próprias convicções, e portanto é também responsável pelos impactos que provoca na realidade.

Cai por terra uma isenção que não existe. Um perfil de profissional que se esconde por traz de uma pseudo-neutralidade, posicionando-se somente como aquele que cumpre seu dever ao informar os fatos, sem nenhum vínculo com eles ou com os impactos que essa divulgação possa vir a provocar.

A informação não é invulnerável às transformações. Ela será aquilo que profissional de comunicação fizer dela.

 




[voltar]