Epidemia e crise: o verdadeiro antídoto é a cooperação

17/03/2020 • Regina Migliori

Em pouco tempo já é possível identificar inúmeras inciativas em resposta aos desafios impostos pela atual epidemia, construídas a partir de novos modelos e nas mais diversas áreas de atividade.

Muitas pessoas culpam a globalização pelo surto de corona vírus e tendem a acreditar que a maneira de evitar outras epidemias é “desglobalizar” o mundo: construir muros, fechar fronteiras, restringir viagens, interromper as interações humanas. Embora a quarentena seja essencial para bloquear o avanço da epidemia, o isolamento de longo prazo, além de impraticável, não oferece nenhuma proteção real contra doenças infecciosas. Porque vírus não respeita fronteiras. A solução vem exatamente do oposto: o verdadeiro antídoto para a epidemia não é a segregação, mas a cooperação. É o que os fatos estão demonstrando.

A solução para esta crise não virá isoladamente de nenhuma liderança. Está sendo construída pela sociedade humana, conseguindo se inspirar e organizar uma resposta global coordenada. A proteção vem da solidariedade, da cooperação que depende de confiança, de valores que fortaleçam essa rede de conexão.

As soluções estão surgindo com novos modelos de negócio, nascidos das respostas colaborativas aos desafios da epidemia. Novas relações de trabalho, já que o home office se torna uma realidade. Redes de solidariedade em relação aos idosos, muitas vezes ignorados ou mantidos como um peso para a sociedade e a previdência. Melhor uso da tecnologia na educação, por força da necessidade do ensino à distância, obrigando as instituições de ensino a saírem da morosidade em se repensar. A democratização e melhoria do acesso à internet por parte das empresas provedoras e dos órgãos responsáveis. O compartilhamento solidário do conhecimento, das artes e das expertises das pessoas, por perceberem a relevância de contribuir com os outros. A criação de alternativas para suporte às famílias e crianças. Os investimentos dirigidos à saúde. O apoio aos setores abalados pela epidemia. A intensa reflexão das pessoas sobre seus estilos de vida, sobre a rede de conexões que sustenta a vida em suas múltiplas dimensões, do biológico ao espiritual. Em maior ou menor escala, tudo isso está sendo praticado, e pode se caracterizar como herança positiva dessa crise.

Este vírus escancara nossa interdependência, para o bem e para o mal. Há séculos, as epidemias matam milhões de pessoas. Sem dúvida, nos tornamos mais vulneráveis às epidemias por conta do crescimento populacional e da velocidade dos transportes. Porém, a incidência e o impacto das epidemias diminuíram drasticamente, não por conta do isolamento, e sim devido à colaboração em pesquisa científica e ao compartilhamento da informação. No século XIV, as pessoas não tinham a menor ideia sobre a causa da peste negra e o que poderia ser feito. Já os cientistas da atualidade, trabalhando em cooperação, levaram apenas duas semanas para identificar o novo corona vírus, sequenciar seu genoma e desenvolver um teste confiável para identificar pessoas infectadas.

Se essa epidemia resultar em maior desunião, isolamento e desconfiança entre as pessoas, será a vitória do vírus, pois enquanto os humanos discutirem e desacreditarem uns dos outros, os vírus irão se multiplicar. Por outro lado, se a epidemia resultar em uma cooperação humana mais estreita, será uma vitória não apenas contra o corona vírus e epidemias futuras. Será a vitória daquilo que há de melhor nos humanos: inteligência, criatividade, valores e capacidade de promover o bem comum.

Regina Migliori

 

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