Comunicação sustentável: das redes neurais às redes de relacionamento

11/07/2008 • Regina Migliori
Regina Migliori
(Publicado no Portal “Nós da Comunicação” )
As pessoas estão em constante transformação, em permanente interação com a realidade ampla e complexa. Vivemos um mundo com muito mais pontos de contato do que se conhecia anteriormente, e que precisa ser abordado de maneira eficaz e responsável.
Mas como interagir conosco, com os outros e com o mundo simultaneamente? Essa dificuldade se suaviza, quando ampliamos os mecanismos internos que se relacionam com a realidade.
Conhecemos parte do funcionamento do nosso cérebro e de suas redes neurais. Conseguimos captar o campo eletromagnético produzido pelos nossos pensamentos, e suas interações com os campos produzidos pelos outros. Mapeamos múltiplas inteligências. Mergulhamos na forma e nos significados da nossa mente. Identificamos os mistérios e os avanços evolutivos da nossa consciência. Ainda há muito para ser desvendado, mas nossa visão sobre a forma como nos relacionamos com o mundo tem se ampliado bastante.
Entram em cena as múltiplas dimensões humanas, do orgânico ao espiritual, com suas diferentes formas de inteligência, todas aptas a intermediar as relações das pessoas com a realidade.
Estas múltiplas dimensões incluem não só uma perspectiva lógica/racional da realidade, mas também as dimensões éticas, vinculadas à expressão prática de valores, à noção de bem comum. As pesquisas a respeito da mente vêm demonstrando que não existe a possibilidade da produção de um pensamento exclusivamente racional, lógico e objetivo, sem nenhuma interação emocional. Pensar, sentir, imaginar, fazer, todas essas potencialidades interagem em um todo indivisível que é a ação humana.
As interações da pessoa consigo mesma, com os outros, e com o mundo, produzem impactos em todas essas dimensões. Além de toda a significação que as relações humanas adquiriram ao longo da nossa história, surgem novas e importantes responsabilidades, até bem pouco tempo desconhecidas.
As relações humanas sedimentam redes neurais nos cérebros das pessoas. Nossas interações provocam alterações anatômicas em nós mesmos e nos outros, formatando verdadeiras avenidas entre os neurônios por onde transitam as informações. Isso amplia profundamente nossa responsabilidade nos processos de relacionamento humano. Qual a qualidade das redes neurais que estamos imprimindo nos nossos cérebros e nos cérebros alheios? Que tipo de processamento mental as pessoas estão produzindo em função da nossa influência? O quanto este processamento é formatado de forma violenta, consumista, ou indiferente ao sofrimento alheio? Sabemos hoje, o quanto os processos de comunicação são responsáveis pela formatação dessas redes neurais.
Evoluímos a ponto de saber como despertar interesse, formar caráter, estabelecer relações e formatar cérebros. Este é o tamanho da nossa responsabilidade.
Se pretendemos tratar das transformações que vêm ocorrendo sob a forte influência destes novos paradigmas, não podemos perder de vista o grande agente deste processo transformador. Não estamos nos referindo somente a novas técnicas. Estamos falando de um novo ser humano, do exercício de novas habilidades e competências visando a manutenção da vida na diversidade das suas manifestações. Um ser sustentável.
A harmonia e integração dos relacionamentos, das organizações, da sociedade, dos países e do mundo está diretamente ligada à harmonia interna das pessoas que atuam nesses universos: são as consciências individuais e coletivas atuando, interagindo e se expandindo, criando idéias, sentimentos, ações, dando forma ao mundo em que vivemos.
Não só o nosso corpo passa por períodos de transformação, nossa evolução não é só biológica. Nossas mentes também estão se transformando, evoluindo. Estamos descobrindo outras dimensões do nosso ser. A ampliação da nossa consciência significa também a ampliação do exercício deste ser, reorganizando nossas potencialidades. Com isso, os anseios, aspirações e resultados também passam a ser diferentes. Estamos crescendo. E crescer significa extrapolar limites.
Mas a novidade não é somente a transformação. Novas são também a consciência que temos dela, e a forma com que nos relacionamos com este novo contexto.
Não basta ser inteligente, criativo e transformador. É preciso também acionar o potencial ético, a capacidade de ser benéfico. Algo que podemos chamar de competência amorosa. Uma forma de inteligência vinculada àquilo que a sabedoria universal traduz como amor. Mais do que uma emoção ou sentimento, o amor pode ser compreendido como um valor humano, uma força que congrega, aproxima, harmoniza e integra. Algo que torna o ser humano capaz de compreender, refletir, expressar e praticar ações para corrigir a rota do seu desenvolvimento, reconectar-se com a vida, e mudar os rumos do mundo para uma trajetória viável.
Tarefa difícil? Nem tanto. Possível? Com certeza. Válida? Mais do que isso, urgente e necessária. O coração se emociona. O conhecimento se expande. O ser humano cresce. E a vida agradece.
Regina de Fátima Migliori é pioneira no Brasil na execução de projetos para diferentes áreas de atividade centrados em Ética, Valores Universais e Sustentabilidade; é Diretora do Instituto Migliori; Consultora em Cultura de Paz da UNESCO; membro fundador do Instituto de Estudos do Futuro; coordenou o MBA em Gestão com foco em Ética, Valores e Sustentabilidade na Fundação Getúlio Vargas, e o Programa de Pós-Graduação em Ética, Valores e Sustentabilidade em outras instituições; tem atuado como consultora para governos, empresas e ONGs; é autora de livros, CD-Rom, e programas de e-learning.



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